Serial Readers #13 — Hei, hou, Borunga chegou, de Santiago Santos

Antes TARDIS Duke Nuken, vamos falar da primeira leitura Serial Reader de 2021. Mas primeiro, deixo com vocês a lista de leituras do primeiro semestre de 2021.

Sobre o Autor

Pulando diretamente por essa seção porque já falamos sobre a Revista Mafagafo, mas deixo o alerta aos escritores de que o edital para a Edição 4 está aberto até o final de Fevereiro! Dito isso, vamos falar sobre Santiago Santos.

Homem branco, de óculos escuros, com cabelo cacheados e barba fechada com cavanhaque de cor castanha como o seu cabelo. Está olhando para o lado e veste uma camisa de botões branca com estampas pretas.
Eis aí o cara.

Santiago Santos é escritor, tradutor, copidesque e jornalista radicado em Cuiabá (Mato Grosso). A maior parte de sua obra é em ficções-relâmpagos publicadas em seu site FlashFiction.com.br, que mantém desde 2014. Também publicou, em 2016 o livro “Na eternidade é sempre domingo” (pela Editora Cartini & Caniato) e em 2018 publicou uma coletânea de ficções-relâmpago chamada “Algazarra” (pela Editora Patuá).

Agora sobre o conto!

Hei, hou, Serial Readers chegou

Acho que uma boa maneira de começar é fazendo uma citação direta longa da sinopse disponível na edição.

“Ribu, uma garota humana, é salva da destruição da Terra pela tripulação alienígena do navio Borunga. Aos sete anos, descobre que o Borunga é uma embarcação que atravessa o multiverso buscando planetas e mundos prestes a morrer e salva deles um único espécime inteligente. Depois de cinco anos na embarcação, Ribu se torna uma de suas mais confiáveis marujas, titular nas missões de resgate. É quando é escalada para salvar Kérrera, uma menina-ovo, que logo se torna sua amiga — e também estopim de muitas mudanças no navio.”

A ilustração no centro da capa mostra seis personagens: um que parece um pequeno ovo com braços e pernas, uma garota de pele negra clara, cabelos encaracolados usando botas, uma calça marrom, uma camisa branca aberta sobre uma blusinha rosa e um cinto, uma espécie de lobo, um humanoide robusto feito de pedra, um outro humanoide cuja cabeça é no torso e um terceiro humanoide com patas e asas de pássaro. Ao fundo, no céu, há a silhueta de um navio com múltiplas velas. O céu está tomado por uma fumaça, e um raio luminoso do que parece uma explosão também se vê ao fundo. O título “Hei, hou, Borunga chegou” vem abaixo, à esquerda, em azul. Do lado esquerdo, em cima, há o logo da Mafagafo com a informação “Temporada 003 - Junho de 2020”. À direita, vêm as informações “Escrito por Santiago Santos” e “editado por Rodrigo van Kampen”. Acima do título da Mafagafo, há as informações “Ilustração: Mário Neves” e “Direção de Arte: Giovanna Cianelli”.

É uma narração em primeira pessoa que nos aproxima muito da personagem Ribu e seus conflitos. E que conflitos! O que nos leva a uma das críticas levantadas no Serial Readers por mim: o título. Não que eu seja bom com títulos, mas quando li “Hei, hou, Borunga Chegou” não imaginei uma canção de piratas — como era a intenção — mas sim algo mais festivo. Quase carnavalesco. Aquela alegria brasileira, sabe? Mas o tom da narrativa não é nada alegrinho. A parada é tensa mesmo! Tanto é que possui o Aviso de Gatilho:Menção a intenções suicidas e de automutilação. Eu acho que é uma história que conversa bem com outra da edição, Emitindo, de Benjamin Edgar Jacob (veja minha review aqui)

Há muitos conflitos sendo tratados nessa história. Por exemplo: individualidade x coletividade. O Borunga aparece momentos antes da destruição de um mundo de algum lugar do multiverso e resgata apenas um indivíduo. Apenas um. E se o indivíduo prefer não embarcar no Borunga, a tripulação parte para o sequestro. Foi o que aconteceu em uma das missões narradas por Ribu. A cultura de Bumpoc prezava muito pelo coletivo. Ela não queria abandonar seu povo para embarcar no Borunga, mesmo que isso fosse salvar sua vida. O coletivo é mais importante que o individual (memso não sendo uma espécie de organização biológica coletiva, tipo “consciência compartilhada”).

Sequestrar Bumpoc é certo ou errado? Kérrera, uma das personagens centrais, considera errado. A escolha dela era morrer em seu mundo, não perambular num barco voador interdimensional (inclusive, esse conceito me lembra Planeta do Tesouro). Jinja, a capitã do Borunga, considera que a destruição iminente do planeta impede indivíduos de tomarem uma decisão racional. Para dar alguma escolha, primeiro precisam embarcar no Borunga. Se desejarem, podem se suicidar e morrer como morreriam em seu mundo. Quem está certa? É uma questão em aberto.

Outra questão diz respeito a própria personagem Kérrera em seu direito a eutanásia Em sua culutra, a morte não é uma coisa terrível como é para humanos. Inclusive, seu povo já sabia do fim do mundo iminente e estava totalmente de boa com isso. Kérrera não ficou totalmente de boa, na verdade, é com o Borunga. Na verdade, ficou nada de boa. Então começou a se automutilar para diminuir seu tempo de vida, o que deixa Ribu transtornada. E aí? Ribu precisa salvar a vida de Kérrera ou não? Kérrera está com depressão ou é algo perfeitamente natural em sua cultura escolher se vai continuar viva ou não? Outra questão em aberto.

Existem autories de ficção científica e fantasia contemporâneos que querem filosofar. Escrevem história pensando nas possíveis sacadas filosóficas geniais que podem inserir nelas. Normalmente, fica uma porcaria. A escrita pretensiosa não consegue entregar nem uma história divertida e nem sacadas filosóficas geniais. em “Hei, hou, Borunga chegou”, Santiago Santos conseguiu filosofar e muito sem forçar a barra. Essas questões só são jogadas para o leitor lidar com isso. O texto não tem a pretensão de entregar respostas prontas para elas, só de estimular o pensamento. E mesmo assim, é uma história divertida e gostosa de se ler!

A partir de agora, vamos a algumas considerações que possuem spoilers. Se você não leu a noveleta, leia.

Principalmente Rodrigo Hipólito, nosso serial reader também responsável pelo Pindorama Podcast, disse que amou o conto e odiou o Borunga. E aí surgiu uma interpretação possível: BORUNGA IMPERIALISTA. Acontece que, desde o início da trama a gente se pergunta: O que é o Borunga? De onde ele veio? Para onde ele vai? Qual é seu intuito? Isso vai passar no Globo Repórter? E essas questões são respondidas no final, quando a Capitã Jinja mostra o interior do Borunga a Ribu e a Kérrera.

Pois bem, o Borunga não é uma “Arca de Noé’. É mais uma biblioteca catalogando seres do universo. A viagem nunca tem fim, então quem é resgatado pelo Borunga eventualmente morre no Borguna.Quem está por trás dessa biblioteca? Não se sabe. Parece que é o próprio Borunga, que é uma criatura viva, tão antiga quanto o multiverso.

Citando o que foi falado na discussão, é como se o Borunga fosse como:

  • Damares Alves (sequestrando crianças de culturas que ela não conhece pra salva-las de um “grande mal”);
  • Europeu iluminista genérico (coletando informações de sociedades que não o pertencem com a desculpa de que a tarefa de fazer uma enciclopédia universal é o suficiente pra violar qualquer direito alheio);
  • Navio europeu genérico (circulando o mundo e roubando exotismos).

Afinal, vale mesmo causar essa confusão toda só para preservar informação? Mas outro ponto foi levantado nas conversas: o Borunga também lembra aquela prática de manter a memória viva. Não lembro onde vi este conceito, mas tem aquele pensamento de “uma pessoa morre duas vezes: uma quando perde a vida e outra quando é lembrada pela última vez”.

O Borunga acaba sendo outra questão em aberto.

E sobre o final: alguns acharam a mudança de atitude da Kérrera muito repentina. Mas também há de se considerar que ela não aceitou o Borunga, só se conformou porque, apesar dos pesares, fez amigas ali. E mesmo que seja uma passagem muito curta pela vida, valia a pena passar com aquelas pessoas. Além do mais, quando Ribu assumiu o cargo de capitã, puderam fazer algumas mudanças na administração do Borunga. Não era muito, mas era o que estava ao alcance.

Por fim, ficam as questões mais capciosas: aquele organismo com uma estrela embutida vai virar supernova quando morrer? O Borunga vai bugar se for resgatar um ser de consciência coletiva? Ficam aí prompts para fanficadores.

Um comentário sobre “Serial Readers #13 — Hei, hou, Borunga chegou, de Santiago Santos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s